segunda-feira, 3 de outubro de 2022

TEMPOS BÁRBAROS

Escrevo este texto ainda presa no domingo pela falta de sono durante a noite, ou talvez num passado mais cruel e distante - que se faz próximo, tão próximo quanto palpável. Faz tempo que não escrevo, mas a palavra é também um exercício de (r)existência, e ela tem a obstinação de atravessar-me o tempo todo. Por isso fazê-lo, vez ou outra, é em mim um exercício de ser.

Ontem, na apuração do que ficou definido posteriormente como o primeiro turno das eleições, deparei-me com uma frase que dizia algo como “se você quer estragar sua vida, faça isso sozinho, pois votando no Lula você estraga a minha também”. Faz parte dos 51 milhões que votaram pela continuidade do atual governo. Pessoa branca, classe média alta, privilegiada desde o primeiro choro até com certeza o que será o último suspiro. Não chorou ninguém próximo para a Covid, mas como profissional da saúde deveria entender melhor sobre a capacidade que um só indivíduo tem de estragar vidas.

Também ontem tive a infelicidade de ver declarações cruéis de pessoas próximas que dividiram o luto comigo, mas perderam a memória da dor. Outros que afirmaram se armar para “meter bala” em qualquer um que se aproximar de suas terras herdadas. Alguns que certamente encomendariam massacres em aldeias indígenas e dormiriam tranquilos em suas mansões no Norte. Gente próxima que se sente branca demais, hétera demais, rica demais, merecedora demais para olhar para o lado e se importar com o que destoa da imagem do “homem de bem virtuoso” que enxerga no espelho pela manhã. Uma imagem deturpada, filtrada pela lente delirante da intolerância e do ódio.

Eu não consigo associar ignorância a pessoas como estas (e tantas, tantas outras). A única associação que me vem à mente é a mais pura e simples perversidade. Como seres coletivos que somos, o olhar à volta, a sustentação mútua, o pensamento de comunidade é o que nos move e o que garante nossa sobrevivência como espécie. É o que nos dá identidade, força, felicidade. O individualismo puro e egoísta, o olhar de proteção único aos pouquíssimos iguais a si em detrimento do diverso, são coisas que destoam e corrompem a natureza coletiva do ser humano – e, então, deturpam o indivíduo e retiram-lhe um tanto de humanidade também.

Num país que sufocou à morte, que definha de fome, que arde as florestas em chamas e assassina os povos que as protegem, que continua escravizando, que mata o amor diverso, que estupra e dilacera suas mulheres... revelam-se ainda muitas pedras no lugar onde deveriam estar corações, como bem disse a médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes. Ela que, como outros milhares de profissionais de saúde, não fechou os olhos, não debochou, não esqueceu as mais de meio milhão de perdas que tivemos há quase nada de história atrás.

Eu não consigo deixar de pensar com tristeza que, como sociedade, ainda temos muitíssimo a evoluir em termos de humanidade. De solidariedade. De compaixão. De amor. Para uma maioria, muitíssimo a evoluir também em termos de cristianismo, ou melhor, de Cristo, aquele filho de carpinteiro de pele escura que caminhava entre pobres, doentes e prostitutas, que se inconformava com templos da riqueza e falava de amor em tempos bárbaros.

Pois ainda vivemos a nossa barbárie. Mas, apesar, há mais pessoas que desejam o fim deste Estado de Obscurantismo do que os que o querem manter. Há o coletivo, a força motriz de uma comunidade, de uma sociedade como nação verdadeira e inclusiva. Há a diversidade que une e fortalece expressa nas escolhas em todo o Brasil. A esperança existe. Que ela seja a nossa energia, a nossa luz em manhãs estranhas como a desta segunda-feira em que fica difícil sair da distopia – mas seres cheios de humanidade que somos, erguemo-nos juntos e seguimos. Agora, mais que nunca, ninguém pode soltar a mão de ninguém.


M.Mei

TEMPOS BÁRBAROS

Es crevo este texto ainda presa no domingo pela falta de sono durante a noite, ou talvez num passado mais cruel e distante - que se faz próx...